mulher velha // mina loy

tradução para o português: maíra mendes galvão

O passado desmoronou
eventos se esvagueiam
o futuro é vagem sem sementes
o presente é dor.

Nem mesmo a dor tem aquela precisão
com que antes feria a juventude.

Anos como mariposas
erodem órgãos internos
pendurados ou caindo
em um armário decrépito.

O teu espelho te acossa?
Ou será o impossível
possível à senilidade?

Como pôde o outrora
ágil e esguio ego–
aquela fina silhueta–
vir a abrigar
esta grande incógnita–
esta estranha bulbosa–
e acabar exorcizado pela morte?

Dilação tomou completamente
tua longa realidade.

***

An Old Woman

The past has come apart
events are vagueing
the future is a seedless pod
the present pain.

Not even pain has that precision
with which it struck youth.

Years like moths
erode internal organs
hanging or falling
in a spoiled closet.

Does your mirror bedevil you?
Or is the impossible
possible to senility?

How could the erstwhile
agile and slim self—-
that narrow silhouette—-
come to contain
this huge incognito—-
this bulbous stranger—-
only to be exorcised by death?

Dilation has entirely dominated
your long reality.

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quando homem penetra mulher // anne sexton

Quando homem,
penetra mulher,
como as ondas mordendo a praia,
mais e mais,
e a mulher abre a boca de prazer
e os dentes brilham
como o alfabeto,
surge Logos ordenhando um astro,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó
para que ambos
jamais se separem de novo
e a mulher
se mete em uma flor
e engole seu pistilo
e Logos surge
e ejeta seus rios.

Este homem,
esta mulher
com sua dupla fome,
tentaram transpor
a cortina de Deus
e brevemente conseguiram,
embora Deus
em Sua perversidade
desate o nó.

***

When Man Enters Woman

When man,
enters woman,
like the surf biting the shore,
again and again,
and the woman opens her mouth with pleasure
and her teeth gleam
like the alphabet,
Logos appears milking a star,
and the man
inside of woman
ties a knot
so that they will
never again be separate
and the woman
climbs into a flower
and swallows its stem
and Logos appears
and unleashes their rivers.

This man,
this woman
with their double hunger,
have tried to reach through
the curtain of God
and briefly they have,
though God
in His perversity
unties the knot.

Agnes Bernelle, 1923-1999

Eiléan Ní Chuilleanáin // trad. Maíra Mendes Galvão

Não há criatura de que eu goste mais do que a aranha
Que todo dia faz seu novo centro
Capturando brilhante a luz do outono

Que calcula a profundidade da moita de alecrim
E o viés do sol na parede de tijolo
Quando ela lança seus véus e cúpulas.

Crispada em seu fio de faca, ela é um ideograma que une
A palavra para ferramentas com a palavra para disciplina,
Pronta para uma vida inteira de leituras dramáticas;

Sua presença é uma sílaba na parede branca,
A sombra adunca. Seus filhos estão em toda parte,
Suas fibras como a longa linha férrea no deserto

Que num instante brilha e no outro encobre-se de poeira.
Se ao menos ela soubesse cantar, seria perfeita, mas
Em tudo o mais ela me lembra você.

***

There is no beast I love better than the spider
That makes her own new centre every day
Catching brilliantly the light of autumn,

That judges the depth of the rosemary bush
And the slant of the sun on the brick wall
When she slings her veils and pinnacles.

She crouches on her knife edge, an ideogram combining
The word for tools with the word for discipline,
Ready for a lifetime of cold rehearsals;

Her presence is the syllable on the white wall,
The hooked shadow. Her children are everywhere,
Her strands as the long railway-line in the desert

That shines one instant and the next is doused in dust.
If she could only sing she would be perfect, but
In everything else she reminds me of you.

* reprodução do original autorizada pela autora *

duas traduções rápidas e coloquiais de poemas de warsan shire

para mulheres que são difíceis de amar

você é um cavalo galopando sozinho
e ele tenta te domar
te compara a uma estrada impossível
a uma casa pegando fogo
diz que você o cega
que ele nunca conseguiria te largar
te esquecer
querer outra coisa que não seja você
você o atordoa, você é insuportável
todas as mulheres antes ou depois de você
estão submersas no seu nome
você enche a boca dele
os dentes dele doendo com a lembrança do gosto
o corpo dele é só uma sombra comprida procurando a sua
mas você sempre foi intensa demais
assustadora por causa do jeito que você o deseja
sem vergonha e sacrificial
ele te diz que homem nenhum se compara àquele que
mora na sua cabeça
e você tentou mudar não tentou?
fechou mais sua boca
tentou ser mais delicada
mais bonita
menos volátil, menos desperta
mas mesmo dormindo você sentia
que ele estava se afastando de você em sonho
então o que você queria fazer, querida
partir o crânio dele?
você não pode fazer seu ninho nas pessoas
alguém deveria ter te dito
e se ele quer te abandonar
deixe que abandone
você é assustadora
e estranha e bela
e isso nem todo mundo sabe amar.

 

Desculpas por fracassarmos no amor

Gosto de ficar só e por isso faço coisas solitárias.
Amar você era como ir para a guerra; nunca voltava igual.
Você odeia mulheres, assim como seu pai e o pai dele, então é hereditário.
Estava vagando pelo estacionamento dilapidado que é seu coração procurando uma carona para casa.
Você é uma cidade-fantasma e eu sou patriótica demais para ir embora.
Eu fico porque você é o começo do sonho de que quero me lembrar.
Não retornei a ligação porque ele gosta de mulheres sem voz.
Não é que ele queira ser mentiroso; é que ele simplesmente não sabe a verdade.
Não consegui amar você, você era uma miniguerra.
Cobrimos o poço da perda com piadas.
Eu não queria fracassar no amor como nossos pais.
Você fez o nômade em mim construir uma casa e se acomodar.
Não sou cachorro.
Estávamos tentando provar que nosso sangue estava errado.
Eu ainda estava me sentindo solitário, então fiz coisas ainda mais solitárias.
Sim, sou insegura, mas minha mãe e a mãe dela também eram.
Não, ele me ama sim, só me faz chorar demais.
Ele sabe de todos os meus segredos e mesmo assim quer me beijar.
Você foi cruel demais para ser amado por muito tempo.
Simplesmente não funcionou.
Meu pai foi embora uma noite e nunca mais voltou.
Não consigo dormir porque o gosto dele ainda está na minha boca.
Eu o cortei pela raiz, ele era minha árvore favorita, apodrecendo, pondo em risco a fundação da minha casa.
As mulheres da minha família morrem esperando.
Porque eu não queria morrer esperando você.
Eu tive de terminar, me sentia solitária quando ele me abraçava.
Você é a música que eu ouço várias vezes até decorar a letra e sentir náusea.
Ele me mandou uma mensagem que dizia “te amo demais.”
O coração dele não era tão bonito quanto o sorriso.
Manipulamos um ao outro emocionalmente até pensarmos que era amor.
Me perdoe, estava carente e te escolhi.
Sou uma amante sem um amante.
Sou incrível e sozinha.
Pertenço profundamente a mim.

sétimo céu // patti smith

tradução de maíra mendes galvão

Ah, Rafael. Anjo da guarda. No amor e no crime
tudo se arranja em sete. sete compartimentos
no coração. as sete elaboradas tentações.
sete demônios exorcizados de Maria Madalena puta
de Cristo. as sete maravilhosas viagens de Simbad.
sim, mau. E o número sete marcado para sempre
na testa de Caim. O primeiro homem inspirado.
O pai do desejo e do assassinato. Mas não foi dele
o primeiro êxtase. Vejamos sua mãe.

Foi de curiosidade o crime de Eva. Segundo
o ditado: matou a fifi. Uma maçã podre matou
o lance todo. Mas pode ter certeza que maçã não era.
Maçã parece bunda. É fruta de fruta.
Deve ter sido um tomate.
Ou melhor. Uma manga.
Ela mordeu. Precisa por a culpa nela. abusar e tudo.
pobre vaca dócil. talvez seja uma estória mal contada.
imagine Satã como um garanhão.
talvez ela estivesse de pernas abertas.
satã serpenteia entre elas.
abrem-se mais
serpenteia coxas acima
se esfrega ali nela um tempo
mais do que a árvore do conhecimento prestes
a ser comida…ela geme seu primeiro gemido
jardim do prazer do prazer
será que se arrependeu
será que chegamos a ser garotas
será que era boa de cama
só deus sabe

 

 

Patti Smith, “seventh heaven” de Early Work 1970-1979. Copirraite © 1994 de Patti Smith. Publicação desta tradução e menção ao poema sob permissão da autora e da W. W. Norton & Company, Inc.

Fonte: EARLY WORK: 1970-1979 (W. W. Norton and Company Inc., 1994)

Entre mulheres

Marie Ponsot // trad.: Maíra Mendes Galvão

Que mulheres vadiam?
Não muitas. Todas. Algumas.
Quase todas arriscariam,
aqui e ali, & pudera.
Algumas, e sou uma delas,
Vadiam sentadas.
Minha pequeníssima avó
Gastava os trocos com ambulantes
Menos pelas fitas e rendas
Do que pelo cheiro deles
De quem dorme em qualquer lugar
Vai embora quando quer, escolhe
Seu ganha-pão e sua companhia.
Ela me aconselhou, “não tenha nada a perder.”
Ela tinha aparência frágil mas
O sangue nobre, tornozelos de atleta,
Aguentava e aguentava.
Ela amava seu canteiro de verduras, seus
Netos, seu homem que
Já fora ousado, já fora jovem.
Mulheres vadiam
Como podem.