baita artigo de tavi gevinson. cometi o erro de ler os comentários, inexoravelmente alinhados com exatamente os pontos que gevinson critica, principalmente a co-optação da retórica de empoderamento do feminismo neoliberal para guarnecer abuso e exploração. conseguiram convencer o mundo de que a proliferação de modelos de instagram, onlyfans e afins sinaliza progresso, quando na verdade é mais do mesmo olhar objetificador e diminutivo, que cerceia o desenvolvimento real e saudável da sexualidade. é muito fácil retrucar que ir contra essas novas avenidas de exploração é conservadorismo, muito mais fácil do que enxergar a dura realidade de que ainda é um mercado de carne que busca não alimento mas ração para seu gado criado, derrubando o desejo e reflorestando o pasto com pornografia.

noções e nocinhas

desde que me retirei do instagram, voltei a ler os artigos recomendados pelo leal arts and letters daily quase todo dia de manhã. é minha companhia usual de café da manhã nestes tempos pandêmicos. hoje, lendo este excerto do livro breaking bread with the dead, de alan jacobs, abri um sorriso quando ele mencionou a expressão de pynchon “temporal bandwidth” (largura de banda temporal). segundo jacobs, o retorno aos livros antigos em meio a esta época de desbarranco da atenção via rolagem incessante promove o alargamento dessa banda, um senso de temporalidade expandido. faz pouco tempo que escrevi, não me lembro onde, talvez um dos meus proliferantes papelinhos, ou em alguma tela, que o momento andava quadridimensional para mim. mas não estou falando de um senso de temporalidade do tipo que lembra a inevitabilidade da morte (esse me parece bem mais presente no modus instagrami), e sim do tipo que ativa nossa capacidade de corporificar tempos, de sentir na carne a confluência dos tempos que formaram a tudo e todos. um tipo de memória da sensação atávica de abertura do cosmos. semana passada, depois de ler o táin bó cuailnge, fiquei pensando em um comentário sobre ele que achei já não me lembro onde e que falava justamente dessa abertura do cosmos: no tipo de tessitura que constitui o táin e as outras narrativas irlandesas dos primeiros séculos AD, as consequências dos eventos são maleáveis, a paisagem é maleável, assim como a morte, as relações, é tudo permeável entre si. não parece existir essa separação metafísica instituída primeiro pelo platonismo e depois, de forma mais ominosa, pelo cristianismo. minha excelentíssima professora, a polimática maria tymoczko, fala muito sobre a relativa paz de que os irlandeses gozaram por um longo tempo (com a exceção de raids – assaltos ou arrastões – como a aventura descrita no táin, que todavia não eram guerras), e sobre como isso permitiu que a cultura irlandesa se tornasse a mais cultivada das ilhas britânicas naquele momento. quando o cristianismo chegou, a alfabetização permitiu o registro escrito da preexistente cultura local – e os escribas maravilhosamente se apropriaram do alfabeto latino para registrar suas narrativas e poéticas no gaélico da época, e não em traduções para o latim (diferentemente do que aconteceu em outras plagas). se nós que lemos isso agora, nós falantes de línguas românicas, sentimos um tipo de atavismo, é belo que seja não por conta do movimento bélico romano, mas sim do movimento letrístico. do encontro de duas línguas e culturas cujo ponto nodal é longínquo, lá no proto-indo-europeu, mas que se reunem para celebrar essa abertura do cosmos que nos permite a continuidade. outra coisa que diz maria é essa relativa paz de que gozaram os irlandeses pode ter ajudado no humor que fica evidente nessa primeira literatura. quando li o táin, algo que me pegou de surpresa foi o quanto ele é lúdico. o humor não é somente escárnio ou algo mais bufônico, mas também tem muitas vezes estrutura de jogo. me pareceu que esse jogo, que acontece até mesmo quando cùchulainn (o herói) está ameaçando, atacando e escornando, é uma expressão dessa abertura do cosmos, de que tudo é maleável e intercambiável, de que não há necessidade de hecatombe, e sim de ciclo, de transformação. o warp-spasm de cùchulainn (a partir da tradução de thomas kinsella, algo como o espasmo deformador) é um espetáculo, um requinte de maleabilidade e de metempsicose instantânea. qualquer semelhança com dragon ball z ou game of thrones não é mera coincidência.

enfim, logo depois de ler o excerto de jacobs, passei para a leitura da semana, que é o beowulf. felizmente, escolhi a tradução de seamus heaney, que me arrebatou desde a introdução (minha nova referência de prefácio do tradutor). o tom do momento, que começou desde a leitura do táin, passando por jacobs algumas horas antes, e culminando (por ora – há de alcançar novas topografias) em heaney, está clarilímpido neste maravilhoso excerto do prefácio, que ele começa recordando o momento em que começa a se desvencilhar da rivalidade irlanda x inglaterra:

“Luckily, I glimpsed the possibility of release from this kind of cultural determinism early on, in my first arts year at Queen’s University, Belfast, when we were lectured on the history of the English language by Professor John Braidwood. Braidwood could not help informing us, for example, that the word “whiskey” is the same word as the Irish and Scots Gaelic word uisce, meaning water, and that the River Usk in Britain is therefore to some extent the River Uisce (or Whiskey); and so in my mind the stream was suddenly turned into a kind of linguistic river of rivers issuing from a pristine Celto-British Land of Cock-aigne, a riverrun of Finnegans Wakespeak pouring out of the cleft rock of some pre-political, prelapsarian, ur-philological Big Rock Candy Mountain—and all of this had a wonderfully sweetening effect upon me. The Irish/English duality, the Celtic/Saxon antithesis were momentarily collapsed, and in the resulting etymological eddy a gleam of recognition flashed through the synapses and I glimpsed an elsewhere of potential which seemed at the same time to be a somewhere being remembered. The place on the language map where the Usk and the uisce and the whiskey coincided was definitely a place where the spirit might find a loophole, an escape route from what John Montague has called “the partitioned intellect,” away into some unpartitioned linguistic country, a region where one’s language would not be a simple badge of ethnicity or a matter of cultural preference or official imposition, but an entry into further language. And I eventually came upon one of these loopholes in Beowulf itself.

What happened was that I found in the glossary to C. L. Wrenn’s edition of the poem the Old English word meaning “to suffer,” the word flolian; and although at first it looked completely strange with its thorn symbol instead of the familiar th, I gradually realized that it was not strange at all, for it was the word that older and less educated people would have used in the country where I grew up. “They’ll just have to learn to thole,” my aunt would say about some family who had suffered an unforeseen bereavement. And now suddenly here was “thole” in the official textual world, mediated through the apparatus of a scholarly edition, a little bleeper to remind me that my aunt’s language was not just a self-enclosed family possession but an historical heritage, one that involved the journey flolian had made north into Scotland and then across into Ulster with the planters and then across from the planters to the locals who had originally spoken Irish and then farther across again when the Scots Irish emigrated to the American South in the eighteenth century. When I read in John Crowe Ransom the line “Sweet ladies, long may ye bloom, and toughly I hope ye may thole,” my heart lifted again, the world widened, something was furthered. The far-flungness of the word, the phenomenological pleasure of finding it variously transformed by Ransom’s modernity and Beowulf’s venerability made me feel vaguely something for which again I only found the words years later. What I was experiencing as I kept meeting up with thole on its multicultural odyssey was the feeling which Osip Mandelstam once defined as a “nostalgia for world culture.” And this was a nostalgia I didn’t even know I suffered until I experienced its fulfilment in this little epiphany. It was as if, on the analogy of baptism by desire, I had undergone something like illumination by philology. And even though I did not know it at the time, I had by then reached the point where I was ready to translate Beowulf. fiolian had opened my right-of-way.”

como uma velha ranzinza de barbas brancas que no fundo é uma criança esperança com os olhos cheios de curiosidade , espero que, por mais que nossa cultura esteja chafurdando e escorregando nessa olimpíada do faustão que é a rede social, ela nunca deixe de abrir o “right-of-way”, o direito de passagem pelo cosmos, a força desbravadora e criativa que permite continuidade, eternidade, unidade, e todos esses ideais que parecem grandiosos mas estão sempre ao alcance, muitas vezes a partir de algo simples como a água (seu brilho, suas palavras).