a escritura da desistência começa do final

e aqui termina a intenção do discurso. acaba a leitura, acaba todo vestígio de vontade. é, então, dispersão. negada está a curvatura proposta, cumprimento e reverência com tendências ao infinito, provisão da voz amorosa. palmas tornaram vazio o parlatório antes mesmo de ser ocupado. um discurso, não atrasado mas de desistência. escutou-se, com as palmas das mãos, o sopro dessa plateia.

o orador engole – quase de véspera – o refluxo ainda não ocorrido, em trânsito. a fala repleta-se de locuções que encabrestam a língua, que fogem ao futuro e de volta ao texto. o antediscurso retumba no primeiro caixilho dentre vários.

replica aquele que fala, a voz é rude, aqui começa a intenção do discurso.

mergulho no asfalto

que os adereços sejam postos abaixo, um a um. que sejam ignorados e se recolham ao solo. entrincheirados, que se confundam entre eles. que se façam intercambiantes. que incorram – mas não todos – em aniquilação mútua causada por excesso de fricção. que seus restos sejam alçados à superfície pelos remanescentes em um gesto que denuncia a já naturalizada aceitação de sua condição intraterrena; configurando-se, assim, o próprio desterro. que essa já transmutada população quase tuberosa finalmente passe a descobrir o conceito de concavidade e a manipular o solo e criar entremeios. que, nos seminovos entressolos, comecem a se desvencilhar de sua condição intercambiante. que decidam, primeiramente em conjunto e depois por si, quais são os pontos exatos a partir dos quais escavar galerias, conectando apontadas concavidades. que, assim, finalmente se apercebam de que seu aparato mental não é somente um jogo de entidades discretas mas também é um emaranhado de linhas telegráficas e que, afinal, as galerias não se trataram de necessidade mas escolha.

da permanência

daqui a algumas horas, chega minha mudança de brasília. [perdoem-me o anacronismo] só que a mudança não é uma só, mudança é condição do tempo. me assomam múltiplas linhas temporais e o que muda são os pulos de uma para outra, ou quedas.

assim, a mudança chegou já há saltos, talvez nem lá nem cá, em incrementos, entrepulssares.

hoje acordei pensando: qual o atrator que me trouxe?

1. a fé? não me povoam crenças em motores divinos nem ascensos nomes. não creio em deus pai, nem em filhos, primos, famílias rivais, krsna ou fraternidades irisadas. não creio em mim, nem em john ou yoko. não creio na descrença, porque o cinismo me entedia. então, sim, foi crença que me trouxe aqui, ou melhor, um enxame de convicções piscapiscantes, que morrem e vivem, morrem e vivem, e saltam. dessas iterações vieram emergências, e dessas emergências, rodamoinhos, e neles, vim parar aqui. no lugar e na ideia.

2. o ideal? esse é que nem assombração: não existe de verdade e é aí que mora o gigante medo. como se lida com algo que dá tanta trela de existência mas nem forma tem? prefiro o céu; esse sim assume o existir, é imbuído, e encharca os outros. prefiro a terra; essa sim a gente pisa, essa sobe no ar e nariz adentro, vira coisa concomitante. e foi assombrada mesmo que rodei para estas plagas, e ainda temo; mas o que corre por aí é que idealizar é negar o medo, então diria que sim, foi o ideal, ainda que infimamente, pois o medo paralisa, e remoinho que não roda cresce. cresce desmedido e arrasa o arredor.

3. a fuga? já antes experimentada, descreditada, completamente debitada das possibilidades. mas, pensando bem, sim, foi a fuga, em seu pavio, no bang que dá o impulso; este, sempre necessário.

4. o material? querer, não querer, noves fora, meu consumo é oportunista e desregrado. para cá não é o mesmo e nem tem como ser; não é varejeiro e plasticoso: o material é imenso, de composição terrosa, insuflado de zéfiros e torvelinhos, percorrido pelos que portam fortuna que brilha sem acumular. ou seja, sim, é o cúmulo: já disse antes e digo novamente: é o existir muito e sempre, ou seja, matéria intensa, o que aqui me trouxe.

5. o amor? ressabio-me do assunto, nele serpenteiam-me as sinapses. os amores congênitos e os autoaplicados – os de sangue e os de philia – são elásticos e o atrator é contrário, porém garantido e benquisto. o outro amor, aquele pária sorrateiro, aquela sibila insinuante, esse sou obrigada a repudiar, pois dribla o que é meu e do que sou capaz, e lava as mãos. esse outro amor, ele tende a não ser ele mesmo, mas cinza ou rastro do que dele se fala, de como a ele se aferra, ou àquilo que outro, mas não ele, é. e ele, no esquecimento, se reveste de sombra. aí é que digo que sim, foi o amor que aqui me trouxe, o apreço último à coisidade e à loucura do existir – sempre com seu lado obscuro e pausado –, o atropelo e a frequência das alturas coronárias que se desdobram em coro com o que aqui avisto e idealizo e assomo e já amo.

Um prólogo altense

1. A ronda

Depois de duas noites aterrorizada pela ameaça que não sei o quão real é de ter a casa invadida por gatunos (felinos que é bom, nada, até agora), anoiteci sem sobressalto. Sabia que haveria ronda em três horários e a possibilidade de fazer telefonemas de socorro ao pânico a qualquer momento. Infelizmente, acordei duas e meia da manhã, calmamente como se fosse a hora certa, por motivo nenhum, e fiquei sentada pensando em já não sei mais o que.

2. O evento social

Uma inauguração: as poucas pessoas que conheço daqui estavam lá, com exceção de uns e outros. Afinal, o comércio é o fulcro das funções citadinas do território social. Para meu contentamento e minha grata surpresa, serviu-se espumante e dei o desconto devido de um naco das tensões dos dias anteriores. Fiz a bela descoberta de que há, afinal, nesta cidade, um restaurante que tem boa (com incremento) carta de vinhos. Na ocasião da descoberta, decidi que prefiro o termo “altense”, que me saiu espontaneamente, a “alto paraisense”, o oficial, e tomei por bem adotar minha caprichosa terminologia, julgando que ser vivo algum dará a mínima.

3. As noites anteriores

Erguer puxadinho-lavanderia e cerca de bambu são atividades custosas, como já se sabe, e custos de quaisquer tipos estendem-se à saúde física e mental. Será esse esgotamento o que aumentou a paranoia de vítima? Enfim, na noite segunda, fiz caso de polícia: depois do jantar, girei nos calcanhares (ou eixos do carro) ao chegar no portão de casa e rodei pela cidade procurando a viatura da PM já antes avistada, que encontrei estacionada na rodoviária, e pedi aos seus ocupantes que me concedessem uma escolta. Na noite primeira o horror foi tão inflacionado que praticamente não dormi.

4. O rodeio pela cidade

Já tenho bom domínio dos vaivens da cidade. Ainda assim, tem acontecido de dar voltas dirigindo, seja porque errei o caminho por uma ou duas ruas, seja porque não sei exatamente o que estou procurando.

5. O que estou procurando

Materialmente, cada hora é uma coisa. Telha assim, caibro assado, ferramentas de jardim. Sempre me escapam minúcias. No plano das pensações (sensações pensantes ou pensamentos sencientes), me ocorreu algo post hoc. Assisti na noite segunda o filme Local Hero, com Peter Capaldi (hello, Doctor!), que envolve aurora boreal, petróleo, excentricidades, pequenos recortes cômicos e idiossincráticos, uma cidade minúscula e o que mais me chamou a atenção: pessoas multiatarefadas (em compasso lento). Em certo momento do filme, um dos habitantes da cidadezica pergunta ao executivo da companhia petrolífera se ele realmente só tem um emprego. E aqui nesta sociedade altense pus reparo que, de fato, muitas pessoas exercem ofícios múltiplos. No momento da reparação, senti o clangor metálico e cheio de gravidade do encaixe entre o óbvio e o inevitável. O que faz uma pessoa multitarefas em uma cidade grande? Esgota-se. Em uma cidade pequena? Se esquece das fronteiras entre trabalho e lazer, ao menos em parte do tempo. Tenho convicção de que isso seja pelo menos parte do que estou procurando, do que sempre procurei, possivelmente com outras palavras, frequentemente sem frasear.

6. As fronteiras

Nesses meus roda-rodas pela cidade, acabo por capturar ângulos diversos dos limites do olhar com os olhos, sempre com muito gosto e a cada momento com nuances diversas. A rua mais feia pela qual passo em direção à casa tem o melhor descortinar do caminho, por ser quase inesperado em seu enquadramento da serra ao longe, que a inexoravelmente expõe.

7. A inexorabilidade

Permeia a vida altense a atração dos excessos da terra e do céu sobre os humanos, sobre-humana sim, menos urgente do que as relações entre nós, pequenos seres, mas absoluta em tempoespaço, em existir sempre e muito, em seu poder de chamar à contemplação mas, em manobra irrevogável, instalar-se nos entranhamentos não como objeto mas como ato e substância.