ainda nem terminei de ouvir o álbum (mas quase). o baixo foi me levando ao longo de todas as canções, e por isso eu não esperava (mas deveria): um tipo de linha setentista, entre psicodelia e soul, quase disco às vezes, uma bateria como nunca ouvi nos ff, com um timbre moderno, algumas músicas que me lembraram tv on the radio (mas por pouco, bem pouco), shuggie otis, ecos de outros álbuns do próprio ff. aliás, esse tipo de exploração do mesmo tipo de “turn of phrase” (no caso aqui frase nem sempre é melódica; às vezes é algo mais estrutural) me agrada muito e me emociona, quando o artista deixa ver suas voltas a algo que não consegue deixar quieto, algo que não se esgotou. ff mudou muito, e no entanto volta às mesmas ideias, sempre como ramificações, mundos possíveis de si. o clima de ontem para hoje ficou perfeito para esse advento musical: as primeiras chuvas depois da seca de 2020 em brasília, uma lembrança longínqua de dias mais ingênuos, de weirding words abounding.

p.s.: de repente entra morgan henderson na música que chegou depois que publiquei o post e a situação se agrava. ele e tim bernardes juntos. um desbarranco.

e em seguida, antes de eu clicar em “update”, começa “thymia”, já refletindo diretamente na garganta aqui. como todo álbum dos ff, shore é sensorialíssimo e estou achando que a reta final dele é onde moram os punti luminosi.

ravil lapiseiras e canetas

P_20191104_180320

estava fazendo meus fichamentos hoje e notei que as minhas canetas de fichar (que são as mesmas de autografar livro) estavam realmente acabando. fim da reserva, mesmo. aí resolvi ressuscitar minhas canetas não-descartáveis: uma lamy roller ball que ganhei do meu pai há décadas, uma cross tinteiro que ganhei de um ex ryko tem uns 15 anos ou mais e uma lamy esferográfica que me dei de presente quando estava por londres em 2011. perguntei ao guga (aquele site de busca) onde podia achar essas cousas e descobri uma tal casa do projetista aqui perto. foi bem curioso ir até lá, pois estou numa névoa de fenergan e com as pernas inchadas (ah, alergias…) e o fato de a tal casa do projetista ser no 13o andar de um prédio desses imponentes do centro, mas que a gente nunca vê (galeria califórnia) me fizeram achar a coisa toda muito mais kafkaesca do que uma saída para comprar carga de caneta deveria ser. a balconista me avisou que é difícil achar essas coisas e me dirigiu pra uma loja ali na rua xis, logo depois do outro acesso da galeria (que não aquele por onde entrei). o balconista desse outro local não encontrou o que eu queria, mas logo o dono chegou, viu minhas canetas e disse, com ares de segredo: “isso aí só na são joão número 33”. apesar da névoa fenergânica e das pernas embalonadas, resolvi fazer a jornada. já havia saído de casa mesmo. mas antes passei na kalunga só pra tirar teima (a teima provou-se somente teima pois não havia coisa alguma que me servisse, nem as canetas descartáveis tipo nanquim que costumo usar). o caminho até a são joão número 33 foi realmente sofrido, uma descida infernal, só porque o drama ajuda a narrativa (bom é que não foi, afinal, o centrão de são paulo infelizmente não tem atmosfera, mas sim uma nuvem de cocô pulverizado). o local é no edifício martinelli e é só uma portinha. teria batido foto se não tivesse obedecido minha regra de não sacar o celular fora em plena rua em são paulo. mas muito aquilo que se espera, minivitrine cheia de potinhos de nanquim de várias cores, caixinhas forradas de papel camurça e canetas de todos os tipos de ponteira e calibre. quem me atendeu foi – presumo – o dono, um senhor bem idoso que tem ou parece ter kajal estilo maquiagem permanente ao redor dos olhos. enfim, comprei carga pra cross (40 pila) e não tive coragem de comprar pras minhas pobres lamy. quase 50 reais cada carga de lamy, cáspite. por isso voltei com essa vermelhinha aí também, que é uma roller ball fina e custa 3,99. depois eu volto lá pra largar 100 pila em prol das lamyzinhas. saí sem saber ao certo se vale a pena financeiramente e ecologicamente recarregar essas canetas grã-finas. carga também vira lixo, afinal, e acho que o tempo de uso é menor do que o das canetas descartáveis. fim da história, não tem moral nenhuma. ah, mas visitem a ravil lapiseiras e canetas se forem passear por ali. o dono me disse que o movimento diminuiu muito e que inclusive a lamy tinha parado de ser distribuída no brasil porque não tinha representante (não tinha representante porque ficou caro e ninguém mais comprava). mas voltou em capacidade reduzida, pelo que ele disse.

john zorn – new masada quartet

bom, esse fechou meu pacote sescjazz e me sinto que nem criança em fim de dia de cosme e damião: abarrotada de guloseimas. foi assim que descrevi a experiência do show de ontem pro amigo também impactado: me senti ganhando balinha atrás de balinha, ficando cada vez mais empolgada e animada pra saber qual vai ser a próxima, e ao mesmo tempo cheia de endorfinas potencializando a esfuziância. muito além da inescapável sedução dos temas klezmer que serviam de trampolim melódico, acho que a sensação de ganhar treats o tempo todo veio do absoluto (e abilolado) domínio das possibilidades texturais dos instrumentos por parte dos músicos, principalmente zorn e o guitarrista julian lage (cuja presença já foi um treat, pois já gostava dele solo e não achei que fosse vê-lo por estas plagas). técnica não é tudo, mas fiquei muito embasbacada em testemunhar a desenvoltura do julian principalmente na mão direita, passando de palhetada pra sweeps airosos, e ainda com a esquerda mandando ver nos hammer-ons e pull-offs na maior alegria – o sorriso constante no rosto foi bonito de ver também. a cozinha fabril steampunk do baterista kenny wollesen e do contrabaixista jorge roeder é um assombro, que peso retumbante e contraste textural maravilhoso também. hoje tem de novo e estou seriamente considerando tentar ingresso na hora. baita oportunidade.

 

* a foto eu quibei do insta do sesc.

egberto gismonti (+ alexandre gismonti) – sesc pompeia 14 out 2019

a apresentação dos gismontis me pegou de surpresa já de início: egberto, antes de tudo, fez um longo agradecimento ao público por doar seu tempo para estar ali. o último concerto dele que assisti foi em brasília, na sala villa-lobos, há muito tempo. nem sei mais, uns 10 anos, talvez. e daquela vez, ele entrou mudo e saiu calado. foi uma massa sonora de improviso pianístico, uma beleza, como sempre, mas com performance de palco de outro gênero, digamos assim. então apreciei ainda mais o gesto generoso.

o público, só para variar, continua sendo uma catervinha de sacripantas. as pessoas parecem não ter controle dos esfíncteres bucais, porque simplesmente PRECISAM enunciar “nossa!” justo durante as esmerilhações, que são uns desbundes contínuos e não devem ser interrompidos por exclamações performáticas chôchas da plateia. e o sujeitinho atrás de mim? senti pena, junto com exasperação, porque o pobre era incapaz de parar de tamborilar os dedos ou fazer um shuffle escalafobético com os pés. e a sujeita que sabia uns trechos de melodias cujas cordas vocais apodreceriam se ela não cantarolasse junto?

BUT WHY?

enfim. a conversa violonística entre pai e filho me impressionou principalmente pelo controle de dinâmica dos dois, muito calibrado. acho que é par for the course, claro, porque duo monoinstrumento, estando em vizinhança de timbres e registro o tempo todo, precisa mesmo desse borogodó. e eles demonstraram isso muito belamente, o que deveras me comoveu. enquanto uma humana afobada, sempre me encanta o RESTRAINT dos outros. tocaram pot-pourris, principalmente, egberto com o violão de dez cordas. alexandre tocou sozinho um pouco e depois egberto sentou-se ao piano e desfiou pixinguinha, villa-lobos, tom jobim… teve palhaço, teve água e vinho. ah, e teve egberto contando anedotas sobre sua relação com o naná vasconcelos (que não vou reproduzir porque o contador faz diferença).

fechando os olhos entre intervenções suínas da plateia, me deixei transportar – e me perdoem a pieguice e o pseudolirismo – entre imagens arquitetônicas que me marcaram em épocas pré-redes sociais, espaços absolutamente analógicos que também evocam alguns cheiros e sensações do tipo “fantasmagoria metafísico-estética”. esse termo bem quimérico é só uma tentativa de designar o aprofundamento sensorial que esse tipo de experiência traz, que acende nosso mapa impressionístico em suas conexões mais diretas e mais tênues, e traz uma dimensionalidade para momentos breves que evoca realmente algo metafísico. é uma sensação de possibilidade (como já disse em algum canto deste site) de existir algo mais real do que o real, por causa da expansão de repertório que a experiência estética traz. então, esse trânsito fantasmático durante alguns trechos me trouxe um deslocamento de espaço e de tempo que aprecio tão, mas tão profundamente nestes tempos sombrios. quer dizer, sempre apreciei, mas agora são momentos raros, e uns bálsamos, de fato. como sempre estamos conversando eu e minha amiga mari, 2012 infelizmente foi real, os haribôs estavam corretos, estamos no apocalipse (the drama!). mas enfim, até o eschaton imanentizado na merda tem seus momentos de trégua.

 

[o crédito da foto acima é da equipe do sesc pompeia – peguei no fb, pois não tirei foto com celular]

sun ra arkestra, 9-10-2019, sesc pompeia

que alegria rara que é presenciar sexagenários e septuagenários que passaram a vida tocando música ainda tocando música. sempre penso isso quando vejo shows como o da sun ra arkestra de ontem. fico emocionada mesmo. (fiz até uma edição aqui no post para dizer: o marshall allen, que é o diretor musical/regente da banda desde a morte do john gilmore, que ficou de sucessor de sun ra, tem 95 anos e é sensacional, então celebremos os nonagenários também, principalmente os que tocam EVI).

fiquei surpresa com a pegada quase metaleira (e os fraseados e dobrados) do guitarrista carl leblanc, que estava usando um headpiece, um adorno cranial, meio new orleans (como disse a mari: “parece treme” – e leblanc é de lá mesmo). ficava ansiosa pelo momento em que algum timbre bizarro de efeitos dúvido-maravilhosos surgiria do rig de carl cortando a massa dos metais, às vezes até se adensando nela, dada a abundância de frequências médio-agudas no recinto, mas com presença inegável.

provavelmente empata no meu ranking de melhores shows que vi nos últimos dois anos com o do marc ribot y los cubanos postizos, que tenho mantido na primeira posição. o do ribot, no entanto, teve qualidade de áudio melhor a noite inteira. no caso da arkestra, infelizmente, a mix só foi encontrar algum estado de graça do meio para o final. meio deprimente que o show da arkestra tenha passado uma hora com as teclas quase inaudíveis, justo elas, as descendentes diretas do grande le sony’r ra.

aí vai um videozinho curto, qualidade android, só um suspiro, pois eu tava era vidrada.

mais um sonho bestiário

sonhei que estava agachada atrás de uma escada de madeira robusta segurando uma tesoura que desobedecia as leis da física, com medo de me machucar, tentando falar com as pessoas do outro lado da escada, sem sair voz. tinha de voltar a um quarto escuro, de repente não havia mais escada nem luz nem gente; estava só e a família morava longe; era tarde da noite e não podia telefonar; sentia angústia; tirava a tampa do lixo para jogar algo fora (seria a tesoura?) e da lata pulava um bicho cor de piche, todo arrepiado, não era gato, não era conhecido; e se agarrava a mim dizendo kiss… kiss… me lembrei de que sonho com bichos imaginários frequentemente; me lembrei de que no sonho aparecia antes ainda outro bicho que ficava em pé e se agarrava, só que menor, talvez uma ratazana; e, por fim, me lembrei de que no sonho ainda, logo antes de acordar assustada, quase consciente, especulava que o bicho da lixeira fosse mucura (não era).

primeiro dia do mar de cortez

estou só em um sovaco do pacífico a um continente e meio de onde nasci. me trouxe aqui um impulso quase perdido, também distante às milhas e léguas, de quando era protozoária aspirante a emília, pernóstica, e via o calipso explorar os mares todos pela caixota da tevê.

suspeito que tenha me trazido aqui também um mar-céu extrapolante do lago-céu de onde nasci e cultivei meus terminais nervosos. no meio disso tudo, me acudo, dou um gole da michelada, penso no que possuem os que me cativam, e vejo que os mais ligeiros e escorregadios têm pouco, coisas com valor simbólico limitado; essas pessoas carregam consigo muito mais do que totemizam: me pergunto se seria um #lifegoal ou algo a se deixar esquecer, quebrar junto com aquela vontade de destruir o caráter, aquela pulsão de morte que não é um desejo de morte, que não é thrillseeking, mas enfim: esses que me cativam amiúde me amiúdam, e aí?

mas me sinto grande e pequena ao perder as dimensões das dimensões em escapes como este, ainda mais viagem por ser cruzamento contumaz de muitas vidas. no df cdmx fiquei besuntadíssima de vida alheia, de outros modos de modular, sonrisas e texturas e tive de me ver desenterrada. sinto falta de companhia mas tenho, esquecido no bolso, um orgulho pobrinho de ser só e de estar encravada neste miúdo de terra, península outra, quiçá a física da minha eterna metafísica – ou uma delas – encarando a possibilidade de ter atravessado estas terras e ares para não poder realizar o riscado deste mundo acá: o mar, aquele de cortez mas que chamo mais de cousteau.

como foi que me saiu isto de sustar aqui as carnes todas nessas já maturações, e mesmo chegando neste élansponto ainda estar longe daquilo que faz deste lugar a tal materialidade do meu duplo?

posso destrancar o espanhol ativo/afetivo que já existe?, que já consta nos meus anais porém espera qualquer coisa, sei que não é mais um gole simplesmente da michelada, mas preciso falar na língua certa sobre peninsular e peninsular até descobrir como chegar à cetaceidade do mar, enquanto pessoa só, sem respaldos, fazer tudo isso de ouvido, porque tenho certeza ab-so-lu-ta de que há um jeito.

mais 1 sonho no rés do fôlego

me condenou com 1 ou mais dedos chuçando meu estômago, ou era o baço? em sentença gestual que não rompeu carne, durante visita que fiz radiante de futuros – o alegre do porvir pequeno – e vadeava pelas pilhas em sua casa como se fossem safra: aliás, tudo era prole, pois ela vê seu mundo como descendente.

enfim, flauteava com os cabelos frescos e cheios, passados do rubro ao ruço – tão diferente, até o viso – o viço transfigurado, na verdade renovado pela turpitude; talvez me tenha acicatado uma sonda, uma ligação ou empatia por cateterismo, já que, afinal, reletrei parte polpuda de seus durames.

saí assombrada por seu cariz, e dali em diante virou assunto de café na varanda onde assomaram duas figuras originárias de sua casa, manticora e quimera – esta última animada; nas pontas, cabeças de eleá e onça –, como mensagem encriptada por um dilema ao vazio dos quartos, destinada a matar ou alimentar minha ventriloquacidade anêmica.