ida-entidade

as pessoas afinal não mudam se quem examina assim quiser examinar assim com foco na dimensão do espaço em cada tempo e não dos tempos em cada espaço. todavia a identidade é provisória e o que vive é o desfile de idas entidades a cada tempo glissando com o de antes e o de depois. gertrude stein não gostava de substantivos porque são indexicais e arbitrários e gostava um pouco mais mas quase nada de adjetivos porque servem ainda mais arbitrariamente aos substantivos já arbitrários e porque todos esses indexicais são simplesmente enumeráveis mas não componíveis e stein gostava de compor. acontece que não conheço outro jeito de realmente existir que não seja compondo voluntariamente ou não e o assinalar de indexicais serve para várias coisas que não são exatamente o existir mas são acessórios de preencher o existir. não sei como ser com identidade pois existiram vários tempos nos espaços que ocupo e eles se confundem porque sou dotada de memória e sei pensar somente de forma inacabada o que gera dúvidas e assim só posso dizer que existo em termos de idas entidades. me perdoem mas não sou poeta nem brasileira nem branca nem solteira nem poliglota nem medíocre nem sequer tradutora ou mulher nem filha de ninguém nem irmã nem tia nem neta nem sobrinha nem parente coisa alguma não sou amiga nem ex-namorada nem esfomeada nem reservada nem fetichista nem recalcada tampouco obsessiva nem malamada nem calipígia nem monocular mas tenho corpo tenho órgãos tenho um olho que uso e outro que não de resto existem várias possibilidades verbais, preposicionais, pronominais, adverbiais com ou sem mente e todavia sigo chafurdando nos substantivos mas sem índex definido sem remissão exata sem correspondência só glissando pois não há que sentido fazer há que coisa fazer e assinalar mata é assim que metáfora vira nome.

Anúncios

cogito aversoado e sem poesia

exercitar o silêncio

não é calar

é ouvir sem atropelo.

bradam “sejamos mais racionais”

mas

qualquer razão que parte do empírico

jamais será QED perfeito.

e este mundo dos fatos:

  • fatos da práxis
  • fatos da psique
  • fatos das tripas

por mais atentamente que se lhe observe

nele um observador ainda é um só

observador.

não vejo muita coisa

menos racional

de que confluí-los:

um vai prevalecer

o de maior gravidade

assim cultuado

por tão pouco

por sua pelagem

pelos imponentes bagos

e por ser treinado para morder duro

alinhavar suas arengas e retóricas

com presunção de razoabilidade.

mas não é pra se acanhar.

se quiser, fale, articule, mas ouça.

se quiser mesmo derivar

a lógica de fatos,

come and see:

o axioma mais perfeito

para engatar arrazoado

será, para funcionar,

imperfeito:

algo qualquer que admita

que não se fala

com integridade

dos fatos

com a razão puramente.

reflexão provocada pelo nascimento do meu sobrinho: quando nasce bebê com vagina, se ela sai gaiteira, ou seja, dando muito pum e arroto, todo mundo faz que não vê (ou limita-se às risadinhas ternas). quando bebê tem pênis, enche-se a boca para dizer que ele peida e arrota com convicção, afinal, “já nasceu bem rapaz”. desejo a ele, ainda tão alheio a todas as convenções a que o vão submeter, muita convicção nesta vida (para ser mole e encouraçado na medida em que desejar) e muita serenidade nos deslizes e abismos (os arroubos mais sentimentais, reservo à esfera pessoal). e às ainda hipotéticas meninas que vão nascer, desejo tudo isso e mais a audácia de crescerem deixando brotar à superfície todos os direitos que se lhe roubam desde antes do nascimento, incluindo o livre exercício de suas funções corporais.