cogito aversoado e sem poesia

exercitar o silêncio

não é calar

é ouvir sem atropelo.

bradam “sejamos mais racionais”

mas

qualquer razão que parte do empírico

jamais será QED perfeito.

e este mundo dos fatos:

  • fatos da práxis
  • fatos da psique
  • fatos das tripas

por mais atentamente que se lhe observe

nele um observador ainda é um só

observador.

não vejo muita coisa

menos racional

de que confluí-los:

um vai prevalecer

o de maior gravidade

assim cultuado

por tão pouco

por sua pelagem

pelos imponentes bagos

e por ser treinado para morder duro

alinhavar suas arengas e retóricas

com presunção de razoabilidade.

mas não é pra se acanhar.

se quiser, fale, articule, mas ouça.

se quiser mesmo derivar

a lógica de fatos,

come and see:

o axioma mais perfeito

para engatar arrazoado

será, para funcionar,

imperfeito:

algo qualquer que admita

que não se fala

com integridade

dos fatos

com a razão puramente.

reflexão provocada pelo nascimento do meu sobrinho: quando nasce bebê com vagina, se ela sai gaiteira, ou seja, dando muito pum e arroto, todo mundo faz que não vê (ou limita-se às risadinhas ternas). quando bebê tem pênis, enche-se a boca para dizer que ele peida e arrota com convicção, afinal, “já nasceu bem rapaz”. desejo a ele, ainda tão alheio a todas as convenções a que o vão submeter, muita convicção nesta vida (para ser mole e encouraçado na medida em que desejar) e muita serenidade nos deslizes e abismos (os arroubos mais sentimentais, reservo à esfera pessoal). e às ainda hipotéticas meninas que vão nascer, desejo tudo isso e mais a audácia de crescerem deixando brotar à superfície todos os direitos que se lhe roubam desde antes do nascimento, incluindo o livre exercício de suas funções corporais.