a escritura da desistência começa do final

e aqui termina a intenção do discurso. acaba a leitura, acaba todo vestígio de vontade. é, então, dispersão. negada está a curvatura proposta, cumprimento e reverência com tendências ao infinito, provisão da voz amorosa. palmas tornaram vazio o parlatório antes mesmo de ser ocupado. um discurso, não atrasado mas de desistência. escutou-se, com as palmas das mãos, o sopro dessa plateia.

o orador engole – quase de véspera – o refluxo ainda não ocorrido, em trânsito. a fala repleta-se de locuções que encabrestam a língua, que fogem ao futuro e de volta ao texto. o antediscurso retumba no primeiro caixilho dentre vários.

replica aquele que fala, a voz é rude, aqui começa a intenção do discurso.

resumo do figo

segundo me apareceu um francisco, em des-língua:

um figo, ao se mover, cada vez mais se encarna.
o moto permite, assim, ao figo, que se materialize quanto mais é lavrado.
o moto engoliu a flor querendo ser figo.

nem mimosa nem mimese, re-sumada, posta em movimento, ressuscita, a-sumo.
recorpórea e des-frutada, em passos recursivos, des-comida, re-saboreada.

assim a metapalavra figo, conforme des-disse francisco.

 

[um poema ecfrástico para ponge]

não acredito que tudo seja relativo ou questão de ponto de vista. mas a maioria das coisas que a gente consegue (e quer) expressar no dia a dia, parece ser, sim. estou desconfiando de que estamos no ápice do costume de se expressar opiniões em blogs/facebook muito mais como resposta irritada a um pico de popularidade de alguma outra opinião do que como fruto de observação atenta e em médio-longo prazo. mas não sei se isso é uma espécie de perversão do que seria o suposto jeito certo de fazer as coisas. outra desconfiança: isso pode ser uma característica da opinião, quase como a natureza da opinião (que não é natural stricto sensu, mas sim construída ao longo do tempo, origem perdida da vista), só que agora desnudada pela rapidez com que as coisas são processadas. somos, juntos, um processador rápido demais. e, como quase toda opinião deste novo upgrade, parece que toda vez que você a emite, ela te morde o rabo. este parágrafo-opinião não é exceção. somos reativos, imediatistas e autorreferentes.

bloomsday 2015 – lots o’fun

as atividades cerebrais e nevrálgicas se puseram em realimentação neste dia de bloom. entre outros empreendimentos, cometi uma tradução de última hora de um dos trechos de que mais gosto do ulysses. ele fica no capítulo 17, também chamado de ítaca por aí. não que alguém precise de uma nova tradução. aliás, eu não li tradução alguma dessa parte até hoje e não vou ler agora para não estragar o meu divertimento.

ei-la:


Que espetáculo a eles se mostrou quando os dois, primeiro o dono da casa, depois o convidado, emergiram em silêncio, duplamente obscurecidos, da escuridão por uma passagem que levava dos fundos da casa à penumbra do jardim?

A arvorecéu de estrelas carregada de frutos úmidos de noiteanil.

Com que meditações Bloom acompanhou sua demonstração de constelações várias ao seu acompanhante?

Meditações sobre evolução mais e mais vasta : sobre a lua invisível em lunação incipiente, perigeu próximo : sobre a vialáctea infinita lactiginosa cintilante incondensada, discernível à luz do dia por um observador posicionado no fundo de um poço vertical cilíndrico de 1500 metros de profundidade fincado na superfície voltado ao centro da terra : sobre Sirius (alfa de Cão Maior) a 10 anos-luz (92.000.000.000.000 quilômetros) e em volume 900 vezes a dimensão de nosso planeta : sobre Arcturo : sobre a precessão dos equinócios : sobre Órion com cinturão e sol teta sêxtuplo e nebulosa que comportaria 100 de nossos sistemas solares : sobre estrelas moribundas e nascentes recentes como a Nova em 1901 : sobre nosso sistema mergulhando em direção à constelação de Hércules : sobre a paralaxe ou deriva paraláctica das assim chamadas estrelas fixas, na realidade em motoconstante de éons imensuravelmente remotos a futuros imensuravelmente remotos em comparação com o que os anos, sessenta e dez, da vida humana alocada, formam um parêntese de brevidade infinitesimal.

Houve meditações obversas sobre involução cada vez menos vasta?

Sobre os éons de períodos geológicos gravados nas estratificações da terra : sobre as miríades de minúsculas existências orgânicas entomológicas escondidas nas cavidades da terra, debaixo de pedras removíveis, em colmeias e montículos, de micróbios, germes, bactérias, bacilos, espermatozoides : sobre os incalculáveis trilhões de milhões de moléculas imperceptíveis contidos por coesão de afinidade molecular em uma só cabeça de alfinete : sobre o universo de linfa humana constelado por corpos vermelhos e brancos, eles próprios universos de espaço vazio constelados por outros corpos, cada um, em continuidade, sendo seu universo de corpos componentes divisíveis em que cada um deles é por sua vez divisível em divisões de corpos componentes redivisíveis, dividendos e divisores mais e mais diminutos sem haver de fato divisão até que, se essa progressão fosse longe o suficiente, nada e lugar nenhum nunca seriam alcançados.

Por que ele não elaborou esses cálculos para chegar em um resultado mais preciso?

Porque alguns anos antes em 1886 quando ocupado com o problema da quadratura do círculo ele se informou da existência de um número computado a um grau relativo de precisão de tal magnitude e com tantas casas, isto é, a nona potência da nona potência do 9, que, obtendo-se o resultado, 33 volumes impressos de 1000 páginas cada qual com inúmeros cadernos e resmas de papel da Índia teriam de ser pedidos para conter a fábula completa de seus números inteiros de unidades, dezenas, centenas, milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, milhões, dezenas de milhões, centenas de milhões, bilhões, o núcleo da nebulosa de cada dígito de cada série contendo sucintamente a potencialidade de ser elevada à elaboração cinética máxima de cada potência de quaisquer de suas potências.

Ele considerou o problema da inabitabilidade dos planetas e de seus satélites por uma raça, dada em espécies, e da possível redenção moral e social dessa raça por um redentor, de mais fácil resolução?

De uma ordem diversa de dificuldade. Consciente de que o organismo humano, normalmente capaz de sustentar uma pressão atmosférica de 19 toneladas, quando elevado a altitude considerável na atmosfera terrestre, sofre progressão aritmética de intensidade de hemorragia nasal, falha de respiração e vertigem, proporcionalmente, na medida em que se aproxima da linha de demarcação entre troposfera e estratosfera, ao propor este problema para resolução, ele conjeturou como hipótese de trabalho que não poderia ser comprovadamente impossível que uma raça de seres mais adaptável e de diferente construção anatômica poderia de outro modo sobreviver sob condições suficientes e equivalentes marcianas, mercuriais, venéreas, jupiterianas, saturninas, netunianas ou uranianas, embora uma humanidade culminante de seres criados com formas variadas com diferenças finitas resultando semelhantes ao todo e entre si provavelmente tanto aqui quanto lá permaneceria inalteravelmente e inalienavelmente apegada a vaidades, a vaidades de vaidades e a tudo o que é vaidade.

E o problema da redenção possível?

O menor foi provado pelo maior.

Que diversas características das constelações foram, por sua vez, consideradas?

As várias cores que significam vários graus de vitalidade (branco, amarelo, carmim, vermelhão, cinabre) : seus graus de brilho : suas magnitudes reveladas até e incluindo a 7a : suas posições : a estrela de waggoner : Walsingham Way : a carruagem de Davi : as cintas anelares de Saturno : a condensação de nebulosas espirais em sóis : as rotações interdependentes de sóis duplos : as descobertas independentes sincrônicas de Galileu, Simon Marius, Piazzi, Le Verrier, Herschel, Galle : as sistematizações tentativas de Bode e Kepler de cubos de distâncias e quadrados de tempos de revoluções : a quase infinita compressibilidade de cometas hirsutos e suas vastas órbitas elípticas egressivas e reentrantes de periélio a afélio : a origem sideral de pedras meteóricas : as enchentes líbias em Marte no período do nascimento do mais novo satroscopista : a recorrência anual de chuvas de meteoros por volta do período do dia de S. Lourenço (mártir, 10 de agosto) : a recorrência mensal conhecida como lua nova com a lua velha nos braços : a postulada influência do celeste nos corpos humanos : a aparição de uma estrela (1a magnitude) com brilho superior dominando dia e noite (um novo sol luminoso gerado pela colisão e amalgamação em incandescência de dois exsóis não-luminosos) por volta do período do nascimento de William Shakespeare sobre o delta na constelação recumbente nuncaposta de Cassiopeia e de uma estrela (2a magnitude) de origem semelhante porém menos brilho que apareceu em e desapareceu da constelação de Coroa Boreal no período do nascimento de Leopold Bloom e de outras estrelas de origem (presumidamente) semelhante que (efetivamente ou presumidamente) apareceram em e desapareceram da constelação de Andrômeda por volta do período do nascimento de Stephen Dedalus, e em e da constelação de Auriga alguns anos depois do nascimento e da morte de Rudolph Bloom, júnior, e em e de outras constelações alguns anos antes ou depois do nascimento ou da morte de outras pessoas, os fenômenos colaterais de eclipses, solares e lunares, da imersão à emersão, a redução dos ventos, o trânsito das sombras, a taciturnidade das criaturas aladas, a emergência dos animais noturnos ou crepusculares, a persistência da luz infernal, a obscuridade das águas terrestres, a palidez dos seres humanos.

A sua (Bloom) conclusão lógica, tendo pesado a questão e admitido a possibilidade de erro?

Que não era uma arvorecéu, nem uma grutacéu, nem uma bestacéu, nem um homemcéu. Que era uma Utopia, já que não havia método conhecido que levasse do conhecido ao desconhecido : um infinito, tomável como igualmente finito pela aposição suposticiosa provável de um ou mais corpos igualmente da mesma e de diferente magnitude : uma mobilidade de formas ilusórias imobilizadas no espaço, remobilizadas no ar : um passado que possivelmente deixou de existir como um presente antes de seus espectadores adentrarem de fato a presente existência.

Ele ficou mais convencido do valor estético do espetáculo?

Indubitavelmente em consequência dos exemplos reiterados de poetas no delírio de um furor de apego ou na degradação da rejeição que invoca ardentes constelações simpáticas ou a frigidez do satélite de seu planeta.

Ele aceitou como artigo de fé a teoria de influências astrológicas sobre desastres sublunares?

Pareceu a ele tão passível de ser provada quanto refutada e a nomenclatura empregada em suas cartas selenográficas como atribuíveis à intuição verificável tanto quanto à analogia falaciosa : o lago dos sonhos, o mar das chuvas, o golfo dos orvalhos, o oceano da fecundidade.

Que afinidades especiais parecia-lhe existir entre a lua e a mulher?

Sua antiguidade em preceder e sobreviver gerações telúricas sucessivas : sua predominância noturna : sua dependência satelítica : seu reflexo luminar : sua constância sob todas as suas fases, nascendo e se pondo em seus horários designados, crescendo e minguando : a invariabilidade forçada de seu aspecto : sua resposta indeterminada a interrogação inafirmativa : sua potência sobre águas efluentes e refluentes : seu poder de enamorar, de mortificar, de investir de beleza, de deixar louco, de incitar a e participar na delinquência : a inescrutabilidade tranquila de seu semblante : a terribilidade de sua dominante implacável resplendente propinquidade isolada: seus agouros de tempestade e de calma : a estimulação de sua luz, de seu movimento e de sua presença : a advertência de suas crateras, seus mares áridos, seu silêncio : seu esplendor, quando visível : sua atração, quando invisível.

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uma discreta fábula matinal

hoje li: “there are ways of being wrong that help others to be right.” e pensei que crer estar certo e ajudar efetivamente os outros devem ser inversamente proporcionais. olhei para o horizonte do que já foi e não obtive provas factuais. olhei para o poço das probabilidades e seus miasmas turvaram minha visão. logo pensei em outra coisa que li hoje: “sorry, everyone. it’s a new day.”

[a primeira frase é do ian mcewan e a segunda é do eric jarosinski]