egberto gismonti (+ alexandre gismonti) – sesc pompeia 14 out 2019

a apresentação dos gismontis me pegou de surpresa já de início: egberto, antes de tudo, fez um longo agradecimento ao público por doar seu tempo para estar ali. o último concerto dele que assisti foi em brasília, na sala villa-lobos, há muito tempo. nem sei mais, uns 10 anos, talvez. e daquela vez, ele entrou mudo e saiu calado. foi uma massa sonora de improviso pianístico, uma beleza, como sempre, mas com performance de palco de outro gênero, digamos assim. então apreciei ainda mais o gesto generoso.

o público, só para variar, continua sendo uma catervinha de sacripantas. as pessoas parecem não ter controle dos esfíncteres bucais, porque simplesmente PRECISAM enunciar “nossa!” justo durante as esmerilhações, que são uns desbundes contínuos e não devem ser interrompidos por exclamações performáticas chôchas da plateia. e o sujeitinho atrás de mim? senti pena, junto com exasperação, porque o pobre era incapaz de parar de tamborilar os dedos ou fazer um shuffle escalafobético com os pés. e a sujeita que sabia uns trechos de melodias cujas cordas vocais apodreceriam se ela não cantarolasse junto?

BUT WHY?

enfim. a conversa violonística entre pai e filho me impressionou principalmente pelo controle de dinâmica dos dois, muito calibrado. acho que é par for the course, claro, porque duo monoinstrumento, estando em vizinhança de timbres e registro o tempo todo, precisa mesmo desse borogodó. e eles demonstraram isso muito belamente, o que deveras me comoveu. enquanto uma humana afobada, sempre me encanta o RESTRAINT dos outros. tocaram pot-pourris, principalmente, egberto com o violão de dez cordas. alexandre tocou sozinho um pouco e depois egberto sentou-se ao piano e desfiou pixinguinha, villa-lobos, tom jobim… teve palhaço, teve água e vinho. ah, e teve egberto contando anedotas sobre sua relação com o naná vasconcelos (que não vou reproduzir porque o contador faz diferença).

fechando os olhos entre intervenções suínas da plateia, me deixei transportar – e me perdoem a pieguice e o pseudolirismo – entre imagens arquitetônicas que me marcaram em épocas pré-redes sociais, espaços absolutamente analógicos que também evocam alguns cheiros e sensações do tipo “fantasmagoria metafísico-estética”. esse termo bem quimérico é só uma tentativa de designar o aprofundamento sensorial que esse tipo de experiência traz, que acende nosso mapa impressionístico em suas conexões mais diretas e mais tênues, e traz uma dimensionalidade para momentos breves que evoca realmente algo metafísico. é uma sensação de possibilidade (como já disse em algum canto deste site) de existir algo mais real do que o real, por causa da expansão de repertório que a experiência estética traz. então, esse trânsito fantasmático durante alguns trechos me trouxe um deslocamento de espaço e de tempo que aprecio tão, mas tão profundamente nestes tempos sombrios. quer dizer, sempre apreciei, mas agora são momentos raros, e uns bálsamos, de fato. como sempre estamos conversando eu e minha amiga mari, 2012 infelizmente foi real, os haribôs estavam corretos, estamos no apocalipse (the drama!). mas enfim, até o eschaton imanentizado na merda tem seus momentos de trégua.

 

[o crédito da foto acima é da equipe do sesc pompeia – peguei no fb, pois não tirei foto com celular]

Publicado por

Maíra Mendes Galvão

maquinista.

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