da alienação da natureza

 

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[apresentação]

não tenho o que dizer neste blog sobre minha vida em alto paraíso, a cidade. ali embaixo escrevi, à época da mudança, como se fosse manter um diário da vida altense e até me embrenhei pela cunhagem de gentílicos. aqui, no entanto, vivo na cidade um tanto imprecisamente, nas bordas, sem encaixe no viver de todo dia. cheguei buscando mais a população inanimada do que os ânimos encharcados de promessas celestiais. aqui tem gente que faz, mas que faz e faz e faz o idêntico, o proposto artístico mas em verdade artesanóstico e a cada falso ciclo se faz da mesma estopa, por trás das cortinas estupefacientes de almejos e delírios místicos. não me espelho, talvez por audácia, talvez por catarática visão, e, assim, não me acode escrever sobre os passos debilitados da teratorbidez desta baixada altense.

me encrava a escrita do empuxo deste paquidérmico chão, ainda que dela eu queira me desarranjar, ser filha pródiga, que de afeto por buscas e vida examinada grita por outros mistérios. é assim que se me aparece essa magnetitude: busco a natureza sem desmedida fuga, sem louvores de gaias e ceres e pachas. busco nela a confrontação com o que é além, com o que é não-identificado, com o objeto claro e ao mesmo tempo impenetrável. busco o alienar para que rejeite o alienar, para ser o momento que me lançará ao ruído.

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[epígrafe]

a vista mergulhada no aquém-horizonte opera com a matéria que se oferece para, mais certamente, intentar prospecção no além-horizonte.

o espaço cogitado, delimitado pela linha certeira e iluminado pelo mesmo astro; observado pelo mesmo satélite, inclui desse e de outros corpos celestes, em vaga momentânea, carga urgente, ânsia cristalografada.

essa condição alienígena, essa devastadora apartação em sua desarvorada potência, é fantasmagoria em ato de captura; o que em efeito estraçalha os empoçados afetos; o que turbina o ensaio da partida; o que escora os ignotos decantados.

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[corpo]

se saio, escolho a emboscada mútua. desconfio que nenhuma direção é intencional. quero ir embora, mas não me escapa nunca a captura avara de voracidades que se me estendem e, por sua vez, também me capturam neste lugar de imensos e eternos.

existe aqui maior atividade e urgência do que logra a superfície das gentes a estagnar as possibilidades metafísicas de suas biliares cogitações.

existe aberta e também soterrada a laborícola pungência daquilo que não pode deixar de ser, que não pode querer deixar, que não pode querer.

os que se apresentam como cheios de quereres, a eles falta fio. enquanto me distraio em delírios de outridade, corpo entregue ao assentar na cegueira das querências, tudo em volta que existe persiste ainda em captura e desafia os tentativos desterros.

quero saber se essa operação também se desfia, se também assente e também desiste. quero perguntar, enquanto sei do vão que é, quero insistir e insuflar o querer e o existir, e percolar emaranhados medrados pela urgência e ser a própria precipitação; recaindo sobre o avesso, alçando vão, especulando a existência no cogito de todos os dias, até que a conta desses dias se desarranje e desarredonde e o destempero se me carregue.

 

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Publicado por

Maíra Mendes Galvão

maquinista.

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