da permanência

daqui a algumas horas, chega minha mudança de brasília. [perdoem-me o anacronismo] só que a mudança não é uma só, mudança é condição do tempo. me assomam múltiplas linhas temporais e o que muda são os pulos de uma para outra, ou quedas.

assim, a mudança chegou já há saltos, talvez nem lá nem cá, em incrementos, entrepulssares.

hoje acordei pensando: qual o atrator que me trouxe?

1. a fé? não me povoam crenças em motores divinos nem ascensos nomes. não creio em deus pai, nem em filhos, primos, famílias rivais, krsna ou fraternidades irisadas. não creio em mim, nem em john ou yoko. não creio na descrença, porque o cinismo me entedia. então, sim, foi crença que me trouxe aqui, ou melhor, um enxame de convicções piscapiscantes, que morrem e vivem, morrem e vivem, e saltam. dessas iterações vieram emergências, e dessas emergências, rodamoinhos, e neles, vim parar aqui. no lugar e na ideia.

2. o ideal? esse é que nem assombração: não existe de verdade e é aí que mora o gigante medo. como se lida com algo que dá tanta trela de existência mas nem forma tem? prefiro o céu; esse sim assume o existir, é imbuído, e encharca os outros. prefiro a terra; essa sim a gente pisa, essa sobe no ar e nariz adentro, vira coisa concomitante. e foi assombrada mesmo que rodei para estas plagas, e ainda temo; mas o que corre por aí é que idealizar é negar o medo, então diria que sim, foi o ideal, ainda que infimamente, pois o medo paralisa, e remoinho que não roda cresce. cresce desmedido e arrasa o arredor.

3. a fuga? já antes experimentada, descreditada, completamente debitada das possibilidades. mas, pensando bem, sim, foi a fuga, em seu pavio, no bang que dá o impulso; este, sempre necessário.

4. o material? querer, não querer, noves fora, meu consumo é oportunista e desregrado. para cá não é o mesmo e nem tem como ser; não é varejeiro e plasticoso: o material é imenso, de composição terrosa, insuflado de zéfiros e torvelinhos, percorrido pelos que portam fortuna que brilha sem acumular. ou seja, sim, é o cúmulo: já disse antes e digo novamente: é o existir muito e sempre, ou seja, matéria intensa, o que aqui me trouxe.

5. o amor? ressabio-me do assunto, nele serpenteiam-me as sinapses. os amores congênitos e os autoaplicados – os de sangue e os de philia – são elásticos e o atrator é contrário, porém garantido e benquisto. o outro amor, aquele pária sorrateiro, aquela sibila insinuante, esse sou obrigada a repudiar, pois dribla o que é meu e do que sou capaz, e lava as mãos. esse outro amor, ele tende a não ser ele mesmo, mas cinza ou rastro do que dele se fala, de como a ele se aferra, ou àquilo que outro, mas não ele, é. e ele, no esquecimento, se reveste de sombra. aí é que digo que sim, foi o amor que aqui me trouxe, o apreço último à coisidade e à loucura do existir – sempre com seu lado obscuro e pausado –, o atropelo e a frequência das alturas coronárias que se desdobram em coro com o que aqui avisto e idealizo e assomo e já amo.

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Publicado por

Maíra Mendes Galvão

maquinista.

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