Um prólogo altense

1. A ronda

Depois de duas noites aterrorizada pela ameaça que não sei o quão real é de ter a casa invadida por gatunos (felinos que é bom, nada, até agora), anoiteci sem sobressalto. Sabia que haveria ronda em três horários e a possibilidade de fazer telefonemas de socorro ao pânico a qualquer momento. Infelizmente, acordei duas e meia da manhã, calmamente como se fosse a hora certa, por motivo nenhum, e fiquei sentada pensando em já não sei mais o que.

2. O evento social

Uma inauguração: as poucas pessoas que conheço daqui estavam lá, com exceção de uns e outros. Afinal, o comércio é o fulcro das funções citadinas do território social. Para meu contentamento e minha grata surpresa, serviu-se espumante e dei o desconto devido de um naco das tensões dos dias anteriores. Fiz a bela descoberta de que há, afinal, nesta cidade, um restaurante que tem boa (com incremento) carta de vinhos. Na ocasião da descoberta, decidi que prefiro o termo “altense”, que me saiu espontaneamente, a “alto paraisense”, o oficial, e tomei por bem adotar minha caprichosa terminologia, julgando que ser vivo algum dará a mínima.

3. As noites anteriores

Erguer puxadinho-lavanderia e cerca de bambu são atividades custosas, como já se sabe, e custos de quaisquer tipos estendem-se à saúde física e mental. Será esse esgotamento o que aumentou a paranoia de vítima? Enfim, na noite segunda, fiz caso de polícia: depois do jantar, girei nos calcanhares (ou eixos do carro) ao chegar no portão de casa e rodei pela cidade procurando a viatura da PM já antes avistada, que encontrei estacionada na rodoviária, e pedi aos seus ocupantes que me concedessem uma escolta. Na noite primeira o horror foi tão inflacionado que praticamente não dormi.

4. O rodeio pela cidade

Já tenho bom domínio dos vaivens da cidade. Ainda assim, tem acontecido de dar voltas dirigindo, seja porque errei o caminho por uma ou duas ruas, seja porque não sei exatamente o que estou procurando.

5. O que estou procurando

Materialmente, cada hora é uma coisa. Telha assim, caibro assado, ferramentas de jardim. Sempre me escapam minúcias. No plano das pensações (sensações pensantes ou pensamentos sencientes), me ocorreu algo post hoc. Assisti na noite segunda o filme Local Hero, com Peter Capaldi (hello, Doctor!), que envolve aurora boreal, petróleo, excentricidades, pequenos recortes cômicos e idiossincráticos, uma cidade minúscula e o que mais me chamou a atenção: pessoas multiatarefadas (em compasso lento). Em certo momento do filme, um dos habitantes da cidadezica pergunta ao executivo da companhia petrolífera se ele realmente só tem um emprego. E aqui nesta sociedade altense pus reparo que, de fato, muitas pessoas exercem ofícios múltiplos. No momento da reparação, senti o clangor metálico e cheio de gravidade do encaixe entre o óbvio e o inevitável. O que faz uma pessoa multitarefas em uma cidade grande? Esgota-se. Em uma cidade pequena? Se esquece das fronteiras entre trabalho e lazer, ao menos em parte do tempo. Tenho convicção de que isso seja pelo menos parte do que estou procurando, do que sempre procurei, possivelmente com outras palavras, frequentemente sem frasear.

6. As fronteiras

Nesses meus roda-rodas pela cidade, acabo por capturar ângulos diversos dos limites do olhar com os olhos, sempre com muito gosto e a cada momento com nuances diversas. A rua mais feia pela qual passo em direção à casa tem o melhor descortinar do caminho, por ser quase inesperado em seu enquadramento da serra ao longe, que a inexoravelmente expõe.

7. A inexorabilidade

Permeia a vida altense a atração dos excessos da terra e do céu sobre os humanos, sobre-humana sim, menos urgente do que as relações entre nós, pequenos seres, mas absoluta em tempoespaço, em existir sempre e muito, em seu poder de chamar à contemplação mas, em manobra irrevogável, instalar-se nos entranhamentos não como objeto mas como ato e substância.

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Publicado por

Maíra Mendes Galvão

maquinista.

Um comentário em “Um prólogo altense”

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