jogral

•segunda-feira, junho 16, 2014 • Deixe um comentário

recapitulo: sem esmerilhar, com soluços episódicos

 

episódio: capitaneio no mar incluso, for a fortnight

 

soluciono: jogo sem tabuleiro, mate por escanteio

 

entabulo: peças pelos cantos, brados pelas cordas

 

e as duas margens não se fizeram encontrar na terça.

da alienação da natureza

•domingo, abril 13, 2014 • Deixe um comentário

 

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[apresentação]

não tenho o que dizer neste blog sobre minha vida em alto paraíso, a cidade. ali embaixo escrevi, à época da mudança, como se fosse manter um diário da vida altense e até me embrenhei pela cunhagem de gentílicos. aqui, no entanto, vivo na cidade um tanto imprecisamente, nas bordas, sem encaixe no viver de todo dia. cheguei buscando mais a população inanimada do que os ânimos encharcados de promessas celestiais. aqui tem gente que faz, mas que faz e faz e faz o idêntico, o proposto artístico mas em verdade artesanóstico e a cada falso ciclo se faz da mesma estopa, por trás das cortinas estupefacientes de almejos e delírios místicos. não me espelho, talvez por audácia, talvez por catarática visão, e, assim, não me acode escrever sobre os passos debilitados da teratorbidez desta baixada altense.

me encrava a escrita do empuxo deste paquidérmico chão, ainda que dela eu queira me desarranjar, ser filha pródiga, que de afeto por buscas e vida examinada grita por outros mistérios. é assim que se me aparece essa magnetitude: busco a natureza sem desmedida fuga, sem louvores de gaias e ceres e pachas. busco nela a confrontação com o que é além, com o que é não-identificado, com o objeto claro e ao mesmo tempo impenetrável. busco o alienar para que rejeite o alienar, para ser o momento que me lançará ao ruído.

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[epígrafe]

a vista mergulhada no aquém-horizonte opera com a matéria que se oferece para, mais certamente, intentar prospecção no além-horizonte.

o espaço cogitado, delimitado pela linha certeira e iluminado pelo mesmo astro; observado pelo mesmo satélite, inclui desse e de outros corpos celestes, em vaga momentânea, carga urgente, ânsia cristalografada.

essa condição alienígena, essa devastadora apartação em sua desarvorada potência, é fantasmagoria em ato de captura; o que em efeito estraçalha os empoçados afetos; o que turbina o ensaio da partida; o que escora os ignotos decantados.

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[corpo]

se saio, escolho a emboscada mútua. desconfio que nenhuma direção é intencional. quero ir embora, mas não me escapa nunca a captura avara de voracidades que se me estendem e, por sua vez, também me capturam neste lugar de imensos e eternos.

existe aqui maior atividade e urgência do que logra a superfície das gentes a estagnar as possibilidades metafísicas de suas biliares cogitações.

existe aberta e também soterrada a laborícola pungência daquilo que não pode deixar de ser, que não pode querer deixar, que não pode querer.

os que se apresentam como cheios de quereres, a eles falta fio. enquanto me distraio em delírios de outridade, corpo entregue ao assentar na cegueira das querências, tudo em volta que existe persiste ainda em captura e desafia os tentativos desterros.

quero saber se essa operação também se desfia, se também assente e também desiste. quero perguntar, enquanto sei do vão que é, quero insistir e insuflar o querer e o existir, e percolar emaranhados medrados pela urgência e ser a própria precipitação; recaindo sobre o avesso, alçando vão, especulando a existência no cogito de todos os dias, até que a conta desses dias se desarranje e desarredonde e o destempero se me carregue.

 

mergulho nas profundezas do asfalto

•quinta-feira, fevereiro 6, 2014 • Deixe um comentário

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“The Rainebow is a thing admirable in the world, which ravisheth often the eyes and spirits of men in consideration of his rich intermingled colours which are seene under the cloudes, seeming as the glistering of the starres, pretious stones, & ornaments of the most beautious flowers… I will shew you how you may doe it at your doore, by a fine and facill experiment. Take water in your mouth, and turne your backe to the Sunne, and your face against some obscure place, then blow out the water which is in your mouth, that it may bee sprinkled in small drops and vapours: you shall see these atomes vapours in the beames of the Sunne to turne into a faire Rainebow, but all the griefe is that it lasteth not but soone is vanished.”

Hendrik van Etten, Mathematicall Recreations (1633)

Fonte: Ask the Past

Que os adereços sejam postos abaixo, um a um. Que sejam ignorados e se recolham ao solo. Entrincheirados, que se confundam entre eles. Que se façam intercambiantes. Que incorram – mas não todos – em aniquilação mútua causada por excesso de fricção. Que seus restos sejam alçados à superfície pelos remanescentes em um gesto que denuncia a já naturalizada aceitação de sua condição intraterrena; configurando-se, assim, o próprio desterro. Que essa já transmutada população quase tuberosa finalmente passe a descobrir o conceito de concavidade e a manipular o solo e criar entremeios. Que, nos seminovos entressolos, comecem a se desvencilhar de sua condição intercambiante. Que decidam, primeiramente em conjunto e depois por si, quais são os pontos exatos a partir dos quais escavar galerias, conectando apontadas concavidades. Que, assim, finalmente se apercebam de que seu aparato mental não é somente um jogo de entidades discretas mas também é um emaranhado de linhas telegráficas e que, afinal, as galerias não se trataram de necessidade mas escolha.

cristalografia

•quarta-feira, novembro 20, 2013 • Deixe um comentário

no crisol, cristalogia que intento acumular

é o avistado que se embrenha e transforma

nas cristas e crenelagens, grisol

o zênite se espraia e, de gris, tinge

de vez, tudo pré-maduro,

sustentando o suspenso sem fim,

adiando a mundos, afora de resolução,

tateando em letras o vocovocífero

do verde de lastro e pedra.

dos limites das sombras e

de seu deslocamento, vejo,

em quase glaceada órbita,

toda a petrologia

e ignitude

em seus recônditos de cumes geminados,

pretenso planalto,

por isso vivente.

aceito, assim,

a topologia,

que, de rompante, iterativa me acompanha

e reconheço essa face das faces,

cresta em toda volta,

com intenção de ser infinda

crostalogia,

fundante assombração.

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da permanência

•quarta-feira, outubro 16, 2013 • Deixe um comentário

daqui a algumas horas, chega minha mudança de brasília. [perdoem-me o anacronismo] só que a mudança não é uma só, mudança é condição do tempo. me assomam múltiplas linhas temporais e o que muda são os pulos de uma para outra, ou quedas.

 

assim, a mudança chegou já há saltos, talvez nem lá nem cá, em incrementos, entrepulssares.

 

hoje acordei pensando: qual o atrator que me trouxe?

 

1. a fé? não me povoam crenças em motores divinos nem ascensos nomes. não creio em deus pai, nem em filhos, primos, famílias rivais, krsna ou fraternidades irisadas. não creio em mim, nem em john ou yoko. não creio na descrença, porque o cinismo me entedia. então, sim, foi crença que me trouxe aqui, ou melhor, um enxame de convicções piscapiscantes, que morrem e vivem, morrem e vivem, e saltam. dessas iterações vieram emergências, e dessas emergências, rodamoinhos, e neles, vim parar aqui. no lugar e na ideia.

 

2. o ideal? esse é que nem assombração: não existe de verdade e é aí que mora o gigante medo. como se lida com algo que dá tanta trela de existência mas nem forma tem? prefiro o céu; esse sim assume o existir, é imbuído, e encharca os outros. prefiro a terra; essa sim a gente pisa, essa sobe no ar e nariz adentro, vira coisa concomitante. e foi assombrada mesmo que rodei para estas plagas, e ainda temo; mas o que corre por aí é que idealizar é negar o medo, então diria que sim, foi o ideal, ainda que infimamente, pois o medo paralisa, e remoinho que não roda cresce. cresce desmedido e arrasa o arredor.

 

3. a fuga? já antes experimentada, descreditada, completamente debitada das possibilidades. mas, pensando bem, sim, foi a fuga, em seu pavio, no bang que dá o impulso; este, sempre necessário.

 

4. o material? querer, não querer, noves fora, meu consumo é oportunista e desregrado. para cá não é o mesmo e nem tem como ser; não é varejeiro e plasticoso: o material é imenso, de composição terrosa, insuflado de zéfiros e torvelinhos, percorrido pelos que portam fortuna que brilha sem acumular. ou seja, sim, é o cúmulo: já disse antes e digo novamente: é o existir muito e sempre, ou seja, matéria intensa, o que aqui me trouxe.

 

5. o amor? ressabio-me do assunto, nele serpenteiam-me as sinapses. os amores congênitos e os autoaplicados – os de sangue e os de philia – são elásticos e o atrator é contrário, porém garantido e benquisto. o outro amor, aquele pária sorrateiro, aquela sibila insinuante, esse sou obrigada a repudiar, pois dribla o que é meu e do que sou capaz, e lava as mãos. esse outro amor, ele tende a não ser ele mesmo, mas cinza ou rastro do que dele se fala, de como a ele se aferra, ou àquilo que outro, mas não ele, é. e ele, no esquecimento, se reveste de sombra. aí é que digo que sim, foi o amor que aqui me trouxe, o apreço último à coisidade e à loucura do existir – sempre com seu lado obscuro e pausado –, o atropelo e a frequência das alturas coronárias que se desdobram em coro com o que aqui avisto e idealizo e assomo e já amo.

Um prólogo altense

•sexta-feira, outubro 4, 2013 • 1 comentário

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1. A ronda

Depois de duas noites aterrorizada pela ameaça que não sei o quão real é de ter a casa invadida por gatunos (felinos que é bom, nada, até agora), anoiteci sem sobressalto. Sabia que haveria ronda em três horários e a possibilidade de fazer telefonemas de socorro ao pânico a qualquer momento. Infelizmente, acordei duas e meia da manhã, calmamente como se fosse a hora certa, por motivo nenhum, e fiquei sentada pensando em já não sei mais o que.

2. O evento social

Uma inauguração: as poucas pessoas que conheço daqui estavam lá, com exceção de uns e outros. Afinal, o comércio é o fulcro das funções citadinas do território social. Para meu contentamento e minha grata surpresa, serviu-se espumante e dei o desconto devido de um naco das tensões dos dias anteriores. Fiz a bela descoberta de que há, afinal, nesta cidade, um restaurante que tem boa (com incremento) carta de vinhos. Na ocasião da descoberta, decidi que prefiro o termo “altense”, que me saiu espontaneamente, a “alto paraisense”, o oficial, e tomei por bem adotar minha caprichosa terminologia, julgando que ser vivo algum dará a mínima.

3. As noites anteriores

Erguer puxadinho-lavanderia e cerca de bambu são atividades custosas, como já se sabe, e custos de quaisquer tipos estendem-se à saúde física e mental. Será esse esgotamento o que aumentou a paranoia de vítima? Enfim, na noite segunda, fiz caso de polícia: depois do jantar, girei nos calcanhares (ou eixos do carro) ao chegar no portão de casa e rodei pela cidade procurando a viatura da PM já antes avistada, que encontrei estacionada na rodoviária, e pedi aos seus ocupantes que me concedessem uma escolta. Na noite primeira o horror foi tão inflacionado que praticamente não dormi.

4. O rodeio pela cidade

Já tenho bom domínio dos vaivens da cidade. Ainda assim, tem acontecido de dar voltas dirigindo, seja porque errei o caminho por uma ou duas ruas, seja porque não sei exatamente o que estou procurando.

5. O que estou procurando

Materialmente, cada hora é uma coisa. Telha assim, caibro assado, ferramentas de jardim. Sempre me escapam minúcias. No plano das pensações (sensações pensantes ou pensamentos sencientes), me ocorreu algo post hoc. Assisti na noite segunda o filme Local Hero, com Peter Capaldi (hello, Doctor!), que envolve aurora boreal, petróleo, excentricidades, pequenos recortes cômicos e idiossincráticos, uma cidade minúscula e o que mais me chamou a atenção: pessoas multiatarefadas (em compasso lento). Em certo momento do filme, um dos habitantes da cidadezica pergunta ao executivo da companhia petrolífera se ele realmente só tem um emprego. E aqui nesta sociedade altense pus reparo que, de fato, muitas pessoas exercem ofícios múltiplos. No momento da reparação, senti o clangor metálico e cheio de gravidade do encaixe entre o óbvio e o inevitável. O que faz uma pessoa multitarefas em uma cidade grande? Esgota-se. Em uma cidade pequena? Se esquece das fronteiras entre trabalho e lazer, ao menos em parte do tempo. Tenho convicção de que isso seja pelo menos parte do que estou procurando, do que sempre procurei, possivelmente com outras palavras, frequentemente sem frasear.

6. As fronteiras

Nesses meus roda-rodas pela cidade, acabo por capturar ângulos diversos dos limites do olhar com os olhos, sempre com muito gosto e a cada momento com nuances diversas. A rua mais feia pela qual passo em direção à casa tem o melhor descortinar do caminho, por ser quase inesperado em seu enquadramento da serra ao longe, que a inexoravelmente expõe.

7. A inexorabilidade

Permeia a vida altense a atração dos excessos da terra e do céu sobre os humanos, sobre-humana sim, menos urgente do que as relações entre nós, pequenos seres, mas absoluta em tempoespaço, em existir sempre e muito, em seu poder de chamar à contemplação mas, em manobra irrevogável, instalar-se nos entranhamentos não como objeto mas como ato e substância.

feliz aniversário, lucio costa

•quarta-feira, fevereiro 27, 2013 • Deixe um comentário

hoje é aniversário de lucio costa, o verdadeiro inventor de brasília. o que ele tirou da cartola foi algo imperfeito, um pouco maluco, um pouco sensato, que fazia todo sentido dentro da visão de mundo dele, que era humanista e esteta. que tinha uma veia comunista mas não podia largar o viés poético de lado. ele ajudou a fazer brotar esta cidade estranha, de cabeça pra baixo: ela começou cheia de caráter e foi perdendo-o, o movimento contrário das cidades surgidas. sinto saudade do caráter que ainda tinha nos anos 80, quando eu era criança e as estruturas do meu espírito se estavam formando: acontece que minhas sinapses têm uma dinâmica assim como aquela da brasília de outrora misturada com o entorno de mágica e contemplação (dois quase sinônimos) em que se insere, que agora aparece mais para mim do que antes, talvez justamente pela deflação do espírito brasiliense propriamente dito. quem me conhece já ouviu mil queixas vindas da minha minguante capacidade de vislumbrar ângulos desta cidade que ainda têm aquele sabor de antes. e o que é esse caráter afinal? difícil descrever; é solidez e uma espécie de lisura, é paleta em movimento de tons terrosos e semiáridos, é diálogo de corpos esparsos, tão afins em sua distância, é perder-se em possibilidades, em vazios aparentes e misteriosamente compreensíveis por quem nasceu ali entremeado. brasília tinha cara de silêncio com seu trânsito fluido e suas relações aparentemente estáticas, agora o trânsito pára e as pessoas se mobilizam; sim, as relações estreitam-se e dinamizam-se, mas perdem, para mim, um pouco da afinidade recôndita, ficam óbvias e enfileiram-se com ansiedade; sumiram-se do olhar ao horizonte para ver nem o que está à frente nem o que está no todo mas aquilo que vem imediatamente após o presente, assim como promessas de políticos. o vazio deixa de ser somente aparente e assume mil faces intercambiantes. lucio costa e seus arroubos de idilização em um cerrado desconhecido ainda, para mim, representa um pouco desse caráter estranho de que só posso falar ad hoc pois sou produto dele, mas é um lucio costa meio oz, meio demiurgo, e não aquele que jamais chegou a experimentar deste estado de espírito que é ser daqui, ser fruto desta cidade que tem somente o dobro da minha idade; quase nascemos juntas e somos filhas pródigas, cada qual a seu modo.

 
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